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domingo, 30 de maio de 2010

EFEITOS DA GLOBALIZAÇÃO

Por mais que se fale da globalização e dos seus impactes na economia destes tempos de profundas alterações, nem sempre conseguimos perceber e antecipar todos os efeitos que as mudanças na economia provocam no cidadão normal de uma qualquer geografia.

De uma forma geral ao falarmos de globalização pensamos em empresas de grandes dimensões, com marcas universais, que operam em todos os mercados, abrangendo a esmagadora maioria da geografia do planeta.

Pensamos também em movimentos geográficos no campo da produção de produtos, na movimentação de mão-de-obra, quer seja especializada quer não, e acima de tudo na movimentação de capitais.

Pensar ainda em globalização é também ver de forma holística os equilíbrios e desequilíbrios geo-políticos existentes e a forma como os mesmos afectam o movimento de globalização.

Finalmente, a globalização têm ainda uma componente cultural, também ela importante sob o ponto de vista económico.

Porém, o que raramente se pensa é que a globalização está também presente nos fenómenos naturais e nos seus impactos na economia, especialmente nas populações.

As alterações que a erupção do vulcão na Finlândia causou temporariamente no quotidiano de muitos cidadãos, principalmente na Europa do Norte e nos EUA são disso um excelente exemplo. A disrupção que a nuvem de pó causada pelo referido evento provocou nas normais vidas de muitos viajantes de meios de transporte aéreo, como profissionais e muitos homens de negócio, turistas e outros viajantes foi objecto de muitas crónicas nos “media”.

Porém, os impactes das nuvens de poeira vulcânica não se ficaram pelos viajantes. Tiveram também efeitos nas populações de vários pontos do globo que nem sequer viajam de avião.

O exemplo disso foi-me contado por um taxista de Belo Horizonte, no Brasil, que durante uma semana viu o seu volume de trabalho drasticamente reduzido durante a semana de mais cancelamentos de voos de quase toda a Europa. Os voos cancelados na Europa, onde se incluem todos aqueles com destino ao Brasil, eliminou uma grande percentagem das corridas de táxi entre o aeroporto e a cidade de Belo Horizonte, principal actividade do taxista em causa, de tal forma que as suas receitas dessa semana se ressentiram bastante.

De facto, estamos perante uma nova realidade, que não será novidade para muitos, mas que vai muito mais além do obviamente visível. Economicamente estamos todos muito mais dependentes uns dos outros, independentemente da nossa posição geográfica ou da nossa actividade.

Ninguém pode ignorar esta nova realidade.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

AJUDAR OS RICOS EM NOME DOS POBRES

A ainda recente tragédia das inundações na Madeira e o enorme movimento de solidariedade nacional que conseguiu angariar vários milhões de euro para a reconstrução de muitas habitações de famílias desalojadas faz-nos pensar como esta situação diferiu em muito do apoio que também a nossa população deu para a tragédia do terramoto no Haiti.

Independentemente dos valores para uma e outra situação, todos conseguimos de alguma forma identificar como o apoio prestado à Madeira teve impacte na população Madeirense. Por exemplo, tivemos a informação de que os apoios obtidos da população por via de uma estação de televisão foram suficientes para reconstruir doze casa numa determinada área afectada pelas enxurradas, onde ficaram outras tantas famílias desalojadas. Todo o dinheiro, fazendo a conta entre o valor total e o número de habitações, respectivamente de um milhão de euros para doze casas, parece ter chegado ao seu destino.

O mesmo não poderemos dizer do apoio dado para o Haiti. Uma grande percentagem dos donativos angariados em Portugal, como no resto do mundo, foi consumida com custos de logística e de gestão. Geralmente menos de 50% dos donativos chegam às populações necessitadas, existindo casos em que apenas uma pequena percentagem, pouco acima dos 10% consegue atingir o objectivo principal.

Pelo meio ficam os custos com a aquisição de bens em países ricos e produtores dos mesmos, com logísticas complicadas de transporte aéreo e marítimo, com direitos alfandegários, com custos de gestão na origem e no destino, bem como com desvios e roubos ao longo de todo o processo e percurso.

Este é um dos principais dilemas para quem ajuda nestas situações. Nunca se sabe onde é que o dinheiro fica ou chega.

Contudo, como no caso da Madeira, em que o dinheiro vai directamente para os beneficiários, sendo que os custos de gestão, de logística, de transportes, de taxas, etc. ficam reduzidos a zero ou lá muito perto, os donativos tem quase 100% de efeito.

Esta comparação, apesar de pecar por falta de fundamentação mais profunda, trás ao de cima a principal diferença entre apoiar um país rico ou um país pobre, em caso de calamidade ou desastre.

No primeiro caso, o dinheiro vai ajudar o país visado, contribuindo de forma directa também para a economia do mesmo. No segundo caso, o dinheiro vai para os países que enviam os bens, ajudando a economia destes, sendo que o valor dos mesmos bens é fortemente reduzido em relação ao valor dos donativos.

O cepticismo de uma grande parte da população dos países ricos com propensão para doar em caso de calamidades e desastres é fundamentado pela desconfiança de que o seu apoio vai para os mais ricos e não para os mais pobres, apesar de muitos, estupidamente, quererem fazer crer que é o contrário.

sábado, 2 de janeiro de 2010

A INFORMAÇÃO DO ESTADO E A ECONOMIA.

No seu discurso de Ano Novo (2010), o Presidente da República apresentou como solução para a actual crise (quase explosiva) que se vive em Portugal, sendo ela principalmente de cariz económico, (1) o “aumento da competitividade nacional” e (2) um “maior apoio aos mais desfavorecidos”. Esta ordem de pensamento necessita de uma curta análise interpretativa do significado de ambas as prioridades.

No que diz respeito ao “aumento da competitividade nacional” convém estabelecer que a mesma é resultante da capacidade dos produtos nacionais têm de competir com os seus concorrentes internacionais. Neste jogo concorrencial, existem dois factores fundamentais: o preço relativamente aos produtos de massa ou “commodities” e a qualidade nos produtos de nicho ou “premiuns”. Assim, concorremos pelo custo de produção que nos permite vender a preços mais baixos do que os concorrentes ou concorremos pela qualidade dos produtos, sendo que esta qualidade se manifesta num mais elevado “valor” que os mesmos possam ter para os consumidores.

Vejamos como se poderá obter cada uma dessas vantagens competitivas.

O custo baixo de produção ou preço baixo de venda obtém-se por via de vários factores, entre outros: baixo custo da mão de obra (politica laboral); elevado índice de produtividade das empresas por via de excelentes processo de gestão e de automação(inovação empresarial) ; taxa cambial em baixa da moeda do país em que o produto é produzido ou taxa cambial em alta da moeda do país que importa o produto (politicas monetárias); baixos custos de externalidade (custos com o Estado relacionados com a burocracia e com os impostos); infra-estruturas de apoio à actividade económica (investimento público no âmbito da comunicação e da distribuição e na criação de centros tecnológicos); aquisição de matérias primas a preços competitivos por via de políticas comerciais internacionais (acordos inter-governamentais); e, excelentes competências individuais do mercado de trabalho (formação e educação da população trabalhadora).

A qualidade dos produtos, reflectida no “valor” dos produtos, obtém-se por via de vários factores, entre outros: inovação dos produtos obtida por via de novas funcionalidade, do design e da utilização de novos “inputs”; inovação dos processos produtivos obtida por via de novos processos e equipamentos produtivos, de novos processos de gestão organizacional e das TIC e de novos processos de marketing no âmbito da imagem/comunicação e distribuição;

Em género de conclusão, e olhando para cada um deste factores, facilmente chegaremos à conclusão que dificilmente conseguiremos ter qualquer vantagem competitiva em qualquer um deles. Na verdade, a nossa posição relativa em todos os factores relacionados com baixos custos de produção é muito inferior quando comparado com as economias do BASIC e outros do mesmo género e é das mais baixas relativamente à qualidade de produtos quando comparada com os nossos parceiros europeus e similares.

Porém, se tentarmos posicionar este assunto no campo político-económico, chegaremos rapidamente à conclusão que os factores acima enumerados são mais facilmente influenciados de forma positiva por sistemas neo-capitalistas do que por sistemas socialistas. Isto significará que a liberdade individual e de escolha, características intrínsecas dos mercados livres e abertos, se sobreporão aos direitos de igualdade e da responsabilidade comunitária. Este entendimento é crucial para se compreender a pertinência, ou falta dela, da segunda prioridade identificada pelo Senhor Presidente da República.

Pegando então no tema do “maior apoio aos mais desfavorecidos”, convirá começar por identificar quem serão os “mais desfavorecidos”. Neste grupo, poderemos incluir alguns dos mais afectados: desempregados de longa duração por força da sua falta de qualificações; jovens sem qualificações e jovens licenciados com imensas dificuldades na obtenção de colocação no mercado de trabalho; idosos com baixos recursos e meios de subsistência; imigrantes e pessoas com deficiências motoras e psíquicas com dificuldades de empregabilidade; e, crianças, jovens e idosos sem família de suporte.

Estes grupos de desfavorecidos apenas poderão ser ajudados por um Estado Social, que transfira recursos do bem comum gerados pela população activa/produtiva para suporte às necessidades dos mesmos, porque as empresas numa economia neo-capitalista ou de mercado não irão, com toda a certeza, assumir, de forma directa, o ónus com tais externalidades, a não ser que daí advenha alguma vantagem competitiva para elas próprias.

É aqui que começam os paradoxos entre as duas prioridades. Para fortalecer o tecido empresarial e criar condições para que se tornem competitivos, ter-se-ão de tomar medidas políticas de âmbito fiscal e laboral que apenas poderão ser contrárias aos interesses dos grupos desfavorecidos. Para apoiar de forma mais acentuada os grupos desfavorecidas ter-se-ão de tomar medidas políticas de âmbito laboral, fiscal e legal que irão contra os interesses das empresas.

Dentro dos limites definidos pelos pólos opostos, “Individualismo e Comunitarismo”, “liberdade e igualdade”, “liberalismo e socialismo”, é difícil, senão impossível, ser simultaneamente uma coisa e outra. Nesta dicotomia entre branco e preto não existe espaço para “tons de cinza” no que diz respeito aos maiores e mais pertinentes interesses de um e outro lado.

É neste contexto que as prioridades enumeradas pelo Presidente da República se tornam inviáveis, especialmente se a sua implementação for tentada em simultâneo. Para que a segunda prioridade, o maior apoio aos mais desfavorecidos, seja possível teremos de ter uma economia forte e um Estado com capacidade financeira para desenvolver acções de apoio aos mais desfavorecidos, o que significa que será necessário implementar a primeira prioridade em primeiro lugar. Para que a primeira prioridade, o aumento da competitividade nacional, seja uma realidade teremos de deixar a segunda para depois, para o médio ou mesmo longo prazo, na medida em que os resultados, especialmente face ao ponto de partida já de si tão deficitário, serão sempre de lento desenvolvimento.

Sendo assim, a quem compete definir prioridades? Ao Presidente da República ou ao Governo? E quem irá ter a coragem, política e social, para esclarecer este assunto a todos os Portugueses, bem como informar quais serão todas as implicações de uma qualquer prioridade para os diferentes agentes económicos e sociais? Quem irá, de uma vez por todas, dar as más notícias aos Portugueses? Ou iremos esperar pelo anunciado desfeche para que a notícia seja post mortem?

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

INDIVIDUALISMO vs COLECTIVISMO

Na natureza podemos encontrar várias formas de organização social, que se colocam em extremos opostos.

As formigas estão organizadas de forma colectiva, com uma estrutura hierárquica e organizacional bem definida e imutável (não existe inovação nem revolução). As cigarras vivem sozinhas, separadas dos restantes elementos da mesma espécie, não possuindo uma estrutura social. Colectivamente (as formigas) ou Individualmente (as cigarras), ambas as espécies conseguem sobreviver, não sei precisamente desde quando, mas arriscamo-nos a dizer que para lá de um milhão de anos.

Mais recentes na vida do planeta Terra, os "suricatas" (há quem erradamente lhes chame cães da pradaria) tem uma estrutura organizacional, hierárquica e social muito bem definida, vivendo em perfeito regime colectivo, o que lhes garante a sobrevivência nos hostis ambientes africanos. Por outro lado, as "chitas" vivem isoladamente, longe das da sua espécie, num perfeito regime individualista, mantendo também a sua sobrevivência nos mesmos ambientes africanos.

Entre estes dois extremos podemos encontrar outras "misturas" com menor ou maior tendência para um dos lados ou extremos.

Se pensarmos na nossa sociedade, poderemos com um reduzido risco dizer que o "homem" se deverá ter organizado de forma colectiva logo nos primórdios da sua existência, à semelhança dos seus parentes primatas, e como ainda podemos ver nas tribos indígenas do Amazonas ou de Papua - Nova Guiné.

Este regime colectivo de organização da sociedade humana assenta na partilha dos bens e conhecimentos, como também na partilha das responsabilidades e obrigações. São regimes colectivos, onde a independência individual é sobreposta pela igualdade entre pares, tanto nos direitos como nos deveres. A hierarquia existente é presente mas não imposta de forma extrema. O direito à opinião e participação para o "bem comum" é igual para todos.

Assim, poderá ser correcto dizermos que o homem tem uma forte tendência histórica para viver de forma colectiva, em sociedade, onde a igualdade tenderá a sobrepor-se ao individualismo ou, nalguma extensão, à liberdade individual.

Porém, durante os últimos séculos, desde a revolução industrial em termos económicos, e a revolução francesa em termos sociais/políticos, temos vindo a assistir nos países do ocidente a uma maior tendência para se valorizar o individualismo e a liberdade individual, apesar das tentativas contrárias de Henkel e Marx (entre muitos defensores do colectivismo).

No século passado, Hayek e Friedman (entre outros) defenderam a liberdade individual como ponto de partida para uma sociedade justa, onde cada um tem direito a ser diferente em função do seu esforço e contributo para a sociedade, sendo que essa sociedade se manifesta num mercado verdadeiramente livre.

Assim, do lado do individualismo teremos alguns princípios dogmáticos como: liberdade de escolha, liberdade de acção, comercialização e movimentação de pessoas e bens, exaltação do indivíduo, do corpo, do sucesso profissional e económico, e liberdade política e económica.

Por outro lado, o colectivismo assenta em alguns dogmas como: participação colectiva de todos, igualdade de direitos e deveres, partilha de resultados, e participação cívica e política.

Aceitando estes princípios como correctos, poderemos então compreender como eles se reflectem na nossa sociedade e na economia.

No lado do Individualismo aceita-se forças políticas diversas, que representem os mais variados interesses, podendo o poder ser partilhado. No lado do Colectivismo aceita-se a participação no partido que represente a maioria, sendo que é a maioria que tem o poder absoluto.

A liberdade de escolher tudo o que se relacione com o indivíduo, como profissão, formação académica e profissional, casa, carro, etc. é típico da filosofia individualista. No lado da filosofia colectivista, o interesse colectivo (do todo) sobrepõem-se às preferências e interesses dos indivíduos em todas essas áreas.

O mercado livre e o capital (como no capitalismo e no neo-liberalismo) são o resultado da aplicação do ideal individualista. O Estado intervencionista e social (social-democracia, socialismo e comunismo no seu extremo) resulta do ideal colectivista.

Se ao individualismo se associa a direita política e ao colectivismo a esquerda política, ficam por responder alguns comportamentos das mesmas correntes políticas, tanto de uma como de outra.

Por exemplo, porque é que o casamento gay (liberdade de escolha sexual individual) não é defendido pela direita mas sim pela esquerda? Porque razão a esquerda pareceu mais preocupada com a potencial queda do sistema financeiro aquando da recente crise do sub-prime do que a direita, se se pretendia apenas garantir os benefícios individuais dos depositantes contra os custos colectivos para os garantir?

Os paradoxos parecem ser bastantes, o que torna impossível para o cidadão comum compreender certas atitudes e acções políticas que se reflectem directamente na nossa sociedade e economia.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A IMPORTÂNCIA DO IDE

Portugal apresentou em 2008 uma das mais baixas taxas de investimento directo estrangeiro, 59%, ficando consideravelmente abaixo da média europeia, que foi de 74%, segundo um estudo divulgado pela Ernst & Young.

O estudo revela que grande parte dos investimentos estão concentrados na área da produção, o que leva a que a média de postos de trabalho criados em Portugal por cada projecto tenha sido de 157, muito acima da média europeia de 70.

Sabendo que o nosso pais já não beneficia do grande diferencial no custo de mão-de-obra que existia há umas décadas atrás, tendo sido substituído nessa matéria pelos países do leste europeu e asiáticos, esta situação poderá ser preocupante na medida em que terá tendência a desaparecer a curto prazo. Aparentemente, a procura de Portugal para investimentos na área da produção, com especial incidência na indústria automóvel, será uma consequência da existência de mão-de-obra suficientemente qualificada e produtiva. Contudo, e olhando para o que acontece noutros países da Europa e até nos próprios EUA, o investimento directo estrangeiro tem vindo a concentra-se nas áreas tecnológicas e de elevado valor acrescentado, nomeadamente mais nas áreas dos serviços especializados do que nas indústrias produtivas.

O IDE funciona, em termos macro e de balança de pagamentos do país, como a exportação de bens de consumo, injectado capital na economia. Com uma balança de pagamentos deficitária e com uma dívida externa que já ultrapassa o valor do PIB, o país e os seus governantes deveriam olhar para este assunto com muito mais apreço e cuidado.

Mas o IDE poderá trazer ainda mais ao país do que uma injecção externa de capitais. Potencialmente trará consigo tecnologia de ponta, novos conhecimentos e competências e novas oportunidades para desenvolvimento de outros negócios ao nível interno da própria economia.

Para aumentar o investimento directo estrangeiro no nosso país teremos de nos assegurar que foram criadas as condições que poderão atrair o mesmo tipo de investimento, nomeadamente regulamentação laboral, fiscal e administrativa adequada bem como mão-de-obra altamente qualificada, especialmente nas áreas tecnológicas de rápido desenvolvimento, como as TIC, nanotecnologia, biotecnologia e outras.

As empresas internas poderão também contribuir para o aumento do IDE, por via de parceiras tecnológicas e de financiamento, mas o seu impacte será sempre reduzido quando comparado com o papel do Estado, que deverá criar as condições propícias ao investimento, tanto externo como mesmo interno. A atractividade do país mede-se pelo ambiente (externo) do mesmo e não apenas pelo ambiente (interno) de uma ou outra empresa.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A CEGUEIRA DO FISCO

A actual atitude e comportamento do fisco para com os contribuintes tem feito com que as empresas e gestores tenham vindo a assumir, também eles, atitudes e comportamentos que em muito prejudicam a economia.

A crescente perseguição do Estado aos gestores de empresas com dívidas para com o Estado, por via do IRC, IVA e descontos para IRS e para com a Segurança Social, tem alterado a atitude e o comportamento de muitos gestores quanto à definição das suas prioridades de curto prazo, o que acaba por ter repercussões no longo prazo.

Muitos administradores e gerentes de empresas já interiorizaram que têm primeiro de pagar ao Estado e à Segurança Social do que a empregados e fornecedores, se querem manter os seus bens próprios a salvo.

Assim, para além dos empregados e fornecedores, que acabam muitas vezes por assumir os custos de situações de crise das empresas, são os próprios investimentos geradores de lucros e de sustentabilidade económica das empresas a médio e longo prazo que ficam em risco de se concretizar.

Se por um lado temos de ter empresas saudáveis, bem geridas, cumpridoras dos seus deveres e que joguem o jogo de mercado de acordo com os princípios correctos, por outro lado temos de distinguir entre aquelas empresas que passam por situações económicas e financeiras difíceis, vítimas das situações de contexto de um dado momento e outras que não seguem as boas práticas da igualdade e da livre concorrência e têm atitudes desrespeitadoras dos seus deveres e obrigações.

A estas últimas, e de forma directa também aos seus responsáveis quando assim for provado, deve o Estado ter a mão suficientemente dura para punir irregularidades e abusos.

Mas medir todas as empresas e todos os gestores pela mesma bitola, sem preocupação em compreender as causas directas que levaram aos incumprimentos, sendo que em alguns casos as mesmas estão relacionadas com incumprimentos do próprio Estado, será ter uma visão demasiado curta do impacte que o estrito cumprimento das regras penalizadoras pode ter na própria economia a médio e longo prazo.

Começa a ser frequente assistir-se ao encerramento de micro e pequenas empresas e à recusa em se fazer novos investimentos com base na rejeição dos investidores e gestores ao risco inerente à atitude do Estado, evitando-se assim os potenciais impactes que a mesma possa ter na actividade das empresas.

A eliminação do tecido empresarial, numa economia de mercado aberta e livre, por via da criação de aversão ao risco nos empresários e potenciais empreendedores é matar a própria economia e, consequentemente, a fonte dos recursos que alimenta o Estado, colocando-o também desta forma em perigo.

Muitas vezes assistimos a posições extremistas e de cegueira na aplicação das regras e da autoridade que, estupidamente, são mais prejudiciais do que benéficas para a sociedade.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

MÃO-DE-OBRA: custo e impactes.

Sabemos que o custo da mão de obra contribui para o custo da produção, tanto de forma directa como indirecta. Os produtos de um país serão tão competitivos no mercado global quanto os custos da sua mão de obra, e outros, são mais baixos que os dos concorrentes. O fenómeno da deslocalização das indústrias com mão de obra intensiva directa é a consequência mais visível deste fenómeno de desigualdade.

Também o custo do trabalho indirecto tem um forte impacte no preço dos produtos de um dado país. Os custos administrativos, tanto ao nível das empresas produtoras e do resto da cadeia de valor que leva o produto até à exportação, como ao nível da administração pública do mesmo país, contribuem cada vez mais para os custos dos produtos. À medida que a robotização e as tecnologias de informação vão assumindo cada vez mais importância na capacidade produtiva, substituindo a mão de obra, tanto nas actividade produtivas como mesmo nas administrativas, o custo da mão de obra ou do trabalho indirecto é também cada vez mais relevante na constituição dos custos finais.

O aumento dos salários da função pública, pagos com os impostos dos contribuintes, cidadãos e empresas, acarreta geralmente subidas na carga fiscal, que afecta directamente os mesmos cidadãos e empresas.

Aqui entra-se num ciclo vicioso. Os cidadãos contestam a perda de capacidade de compra, criada pela subida dos impostos, e exigem aumentos salariais. Os aumentos salariais acarretam aumento do custo de produção dos produtos, que perdem competitividade. O aumento salarial por outro lado leva a que o Estado recolha mais receita dos impostos sobre esses. Porém, em vez de diminuir a carga fiscal por via da utilização dessa receita extra, o mesmo Estado tem de aplicar esse recurso na compensação do desemprego criado pela robotização e automação dos processos produtivos e administrativos. A própria administração pública que tinha visto o seu trabalho vais valorizado perde de esse benefício com o aumento do preço dos produtos.

Ninguém ficou a ganhar, mas todos ficaram a perder.

O aumento da capacidade de compra das populações não sobe forçosamente por força das subidas salariais. As variações nos preço dos produtos e serviços par aos consumidores, ou seja a inflação, tem mais influência no nível de vida.

A subida do custo do trabalho afecta negativamente a inflação. O aumento de produtividade afecta positivamente a inflação. Se uma é prejudicial e a outra benéfica, porque não se definem politicas que levem à persecução da melhor solução, perguntarão muitos.

Também, nesta matéria, estupidamente outras forças e razões mais fortes sobrepõem-se aos princípios económicos.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A ELECTRICIDADE NA ECONOMIA

Não foi a máquina a vapor, causa próxima da revolução industrial, que trouxe prosperidade ao mundo, mas sim a electricidade.

Benjamin Franklin pode um dia ser considerado o maior inovador (revolucionário) do mundo, porque para todos os efeitos do seu trabalho na área das descobertas no campo da electricidade é simplesmente inultrapassável no que concerne ao desenvolvimento da sociedade e da economia. Podemos dizer com propriedade que existem duas eras na civilização e na economia: ante e depois da electricidade.

A história ainda não fez justiça a esta verdade. Aponta-se sempre a máquina a vapor como o grande salto no desenvolvimento da economia e da sociedade.

Contudo, numa análise aos impactes imediatos e directos na sociedade e na economia, poderemos dizer que se ainda hoje apenas vivêssemos com máquinas a vapor e sem electricidade, estaríamos por certo no tempo das trevas.

O mundo gira com base na electricidade. Mesmo os meios de locomoção movidos a combustíveis fósseis estão a fazer uma derradeira transição para o consumo eléctrico.

Se imaginarmos por alguns momentos que por uma qualquer razão a produção ou a distribuição de electricidade fosse interrompida em todo o mundo num dado momento, chegaremos imediatamente à conclusão que a nossa sociedade entrará em pânico poucas horas depois. Os hospitais deixarão de funcionar com consequentes perdas de vidas, a distribuição de água ficará interrompida privando a esmagadora maioria da população dessa fonte indispensável de vida, o saneamento deixará de funcionar provocando a contaminação por doenças de muita gente, a sinalização luminosa de trânsito desaparecerá provocando enormes engarrafamentos, as fábricas deixarão de funcionar com perda de postos de trabalho, a produção de alimentos será interrompida, bem como a sua distribuição por impossibilidade de abastecer os veículos com combustíveis, os sistemas informáticos deixarão de funcionar, as telecomunicações ficarão inoperantes e a comunicação ficará reduzida a zero, tudo isto no mundo cada vez mais global e uniforme nos desejos, anseios e padrões de vida.

A sociedade não está preparada para sobreviver sem electricidade.

Quanto tempo conseguirá cada um de nós sobreviver sem electricidade?

As populações dos grandes centros urbanos são as mais fragilizadas. As populações rurais poderão resistir mais algum tempo. Mas a questão é quanto tempo leva a que o campo não seja invadido e saqueado pela população urbana, desesperada e tentando sobreviver a todo o custo?

A produção de electricidade em pequenos núcleos locais, independentes de grandes redes de distribuição, nunca foi pensada devido aos custos que pequenas produções acarretam. Mas, e se ficarmos sem as grandes redes de distribuição, devido a uma qualquer causa natural?

É impressionante, quando visto nesta perspectiva, como este problema tem sido descorado por governantes de todo o mundo.

Sem electricidade mais de três quartos da população mundial arrisca-se a perecer a curto/médio prazo. Contudo, parece que, estupidamente, esse problema ainda não foi devidamente avaliado nem reconhecido.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A RIQUEZA DAS FAMÍLIAS E A ECONOMIA.

Os dados estatísticos mostram que as famílias portuguesas estão a amealhar mais do que costumavam fazer nos últimos anos.

Quer isto dizer que estamos a atravessar a crise de forma confortável e que a população portuguesa está devidamente preparada para enfrentar os tempos ainda difíceis que restam antes da retoma económica? Não, necessariamente.

De facto, o capital bem como os activos financeiros líquidos detidos por particulares aumentaram no segundo trimestre deste ano, contrariando a tendência de mais de uma ano, coincidente com todo o despoletar, primeiramente, da crise financeira e, depois, da económica.

Por uma lado as pessoas estão a poupar mais. Por outro, tem-se assistido a uma ligeira mas continuada recuperação das bolsas. Contudo, muitos dos investidores bolsistas passaram para produtos bem mais seguros, como depósitos a prazo, os quais têm vindo a aumentar consideravelmente.

Mas quem são as pessoas que estão efectivamente a poupar mais? Quem aufere rendimentos diminutos, já insuficientes muitas vezes para suportar o custo de vida diário, não conseguirá por certo aforrar o quer que seja. Quem perdeu o seu rendimento por via do desemprego muito menos poderá ajudar neste exercício. Então quem sobra? Naturalmente que aquelas que continuam a laborar e a auferir os seus rendimentos e que mais ganham na pirâmide hierárquica do rendimento geral.

Efectivamente a classe média-alta, que conseguiu preservar os seus empregos ou negócios, terá capacidade para aforrar agora mais do que antes, por força da deflação existente ou por retracção no consumo, ou até mesmo no investimento.

Assim, o aumento de capital devidamente guardado em depósitos a prazo ou noutros produtos financeiros garantidos, parcial ou totalmente, ao invés de querer significar que estamos a ficar mais fortalecidos enquanto população para enfrentar a crise que ainda continua, significará por certo que a crise se agudizará ainda mais, devido principalmente à diminuição do investimento privado.

Em vez de investirem em propriedades imobiliárias ou consumirem mais bens de consumo, quem detém o capital está a guardá-lo, na expectativa da queda dos preços por força da deflação ou por medo de vir a perder os seus investimentos. A aversão ao risco cresce consideravelmente em tempos de crise. Não basta a comunicação de que os restantes países da Europa e os EUA estão a sair da crise e que existem sinais de retoma. É necessário sentir isso à nossa volta, o que não está a acontecer neste momento.

A continuada subida do desemprego, que ainda não atingiu os valores por muitos vaticinados, a falta de projectos nacionais estruturantes e suficientemente abrangentes que promovam a recuperação económica e o emprego, a inexistência de políticas de apoio à iniciativa privada e individual, e outras situações contrárias à satisfação social fazem com que os cidadãos que possuem activos financeiros os deixem estar muito bem guardados nos cofres dos bancos ou noutras instituições fidedignas, se ainda existir tal segurança.

Desta forma, sem investimento e sem consumo forte, naturalmente que os cofres dos bancos cheios de dinheiro em nada ajudarão à criação de riqueza e à saída da crise. 

PARQUES DE ESTACIONAMENTO E MULTAS POR ESTACIONAMENTO

A razão inicial que leva as autarquias a criar áreas de estacionamento pago é rapidamente esquecida em favor de outra bem mais importante, a das receitas.

As autarquias costumam criar zonas pagas de parqueamento automóvel de forma a fazer com que as pessoas se sintam desincentivadas a levar os seus carros para as zonas centrais das cidades e a deixá-los lá por muito tempo, fazendo assim uma ocupação plena dos poucos espaços existentes para se poder parquear viaturas automóveis.

Efectivamente, é a falta de espaço público livre para se estacionar as viaturas nos centros das cidades e vilas que cria a necessidade de se limitar o tempo de estacionamento. Este princípio parece justificar a criação de limite de tempo de estacionamento, para que todos possam usufruir dos limitados espaços físicos existentes, bem como de um custo para o fazer, de maneira a criar uma barreira económica à utilização exagerada do espaço público.

Geralmente estas situações acontecem porque as cidades não foram planeadas para receber sequer automóveis, quanto mais nas quantidades que hoje em dia afluem aos centros urbanos.

A isto chamam os economistas “falha de mercado”. Assim, espera-se que o próprio mercado, do lado da oferta, dê resposta às necessidades, isto é à procura, criando espaços onde as pessoas possam estacionar as suas viaturas. Contudo, se as autarquias continuarem a disponibilizar espaços de estacionamento a custo zero para os utentes, os privados que o fizeram terão enorme dificuldade em obter utilizadores e, consequentemente, retorno par aos seus investimentos. Porém, numa situação de espaços públicos livres e gratuítos em reduzida quantidade e simultaneamente de oferta privada em grande quantidade pode-se perder a igualdade de oportunidade entre os que conseguem estacionar gratuitamente e os que se vêem obrigados a pagar para o mesmo fim.

A grande procura de estacionamento nos centros urbanos tornou-se numa enorme oportunidade de negócio. De tal forma que as autarquias já não estão interessadas nem em oferecer estacionamento gratuíto nem em limitar o tempo de estacionamento, de forma a que todos os utilizadores tenham a igualdade de oportunidade de obter um espaço livre para estacionar, mas estão antes interessadas em obter receitas para elas próprias.

Desta forma, o utilização de parquímetros generalizou-se nas localidades, grandes e pequenas, sendo que as ruas passaram a ser espaços de criação de receitas para as autarquias em vez de serem espaços para circulação e estacionamento.

Por outro lado, e devido ao enorme custo do espaço urbano, em geral altamente inflacionado pela especulação imobiliária, construir parques de estacionamento não é uma das opções mais lucrativas para a iniciativa privada. Esta realidade leva a que as autarquias tenham interesse redobrado na gestão dos espaços livres e destinados aos estacionamentos.

Uma “falha de mercado” torna-se, por via da tentativa da sua própria solução, numa “falha do regulador” que acaba por criar mais um imposto sobre os cidadãos utilizadores dos estacionamentos urbanos. A falta de transportes públicos adequados que permitam a movimentação dos cidadãos dentro das zonas urbanas com facilidade, na maioria das vezes inexistentes por falta de rentabilidade de tal serviço, leva a que os utilizadores tenham de se fazer transportar em viaturas próprias, enchendo cidades e vilas. Estupidamente, continuamos a suportar tais esquemas em nome da regalia de levar as nossas viaturas para os centros urbanos.